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26/08/2020

Atos dos apóstolos 29 - A chama não se apaga

 


Atos 12

Ouça esse diálogo hipotético, baseado no nosso texto, que é Atos capítulo 12. É um print da tela do celular contendo a conversa de WhatsApp entre o Zé Crente e o Mané Cristão:

Zé Crente: Você soube o que aconteceu? Herodes decapitou o apóstolo Tiago!

Mané Cristão: Meu Deus do céu! Sério? Não pode ser! Ele era um dos mais chegados de Jesus; ele, Pedro e João. Gente, eu pensava que Deus o protegeria!

Zé Crente: Espere! Isso não é tudo. Pedro está preso e deverá ser o próximo.

Mané Cristão: Jesus altíssimo!

Zé Crente: Ainda por cima, as pesquisas mais recentes mostram que o índice de aprovação e de popularidade de Herodes aumentou depois que ele matou o Tiago.

Mané Cristão: Mesmo?

Zé Crente: Sabe o que é pior? Todo mundo está comentando que amanhã, depois que a festa acabar, Pedro será executado!

Mané Cristão: Meu Deus do céu! E agora? Tiago já foi morto, e se matarem Pedro, será o início do fim da chama do evangelho! Ninguém vai fazer nada?

Zé Crente: Faremos uma vigília de oração hoje à noite na casa de Maria, mãe de João Marcos.

Mané Cristão: Tá bom, obrigado. Eu te vejo lá. Até logo.

Há momentos em que a maldade parece estar vencendo a batalha. Homens maus aprontam, mas escapam ilesos, com a popularidade nas alturas. É fácil, nessas horas, se perguntar: “Onde está Deus em tudo isso? Por que ele permitiu esse mal? Como é que algum bem poderá resultar de uma maldade tão horrível?” Já se viu nessa situação? É o caso em Atos 12.

Tiago e João eram irmãos muito chegados (Mateus 10.2); eles trabalharam juntos nos negócios da pesca do pai Zebedeu. Eram, provavelmente, primos de Jesus (João 19.25 e Mateus 27.56) e passaram três anos em contato direto com ele, participando intimamente no núcleo íntimo de Cristo (Mateus 17.1, Marcos 5.37, 9.2, e 14.33). Eles tinham esperanças e sonhos de como Deus os usaria para espalhar o evangelho até os confins da terra. Mas agora, Tiago, de repente, foi brutalmente executado e Pedro poderia ser o próximo. Muitos deveriam estar se perguntando: “Por quê?”

Eis um resumo do nosso texto: No início de Atos 12, vemos Tiago morto, Pedro na prisão, aguardando a hora de sua execução, e o tirano Herodes aproveitando sua popularidade e poder entre os judeus (Atos 12.1 a 4). Enquanto isso, a igreja estava orando na casa de Maria, mãe de João Marcos (Atos 12.5 e 12). No final do capítulo, enxergamos Pedro milagrosamente liberto (Atos 12.5 a 19), Herodes comido por vermes e, finalmente, morto (Atos 12.20 e 23), e a Palavra de Deus crescendo e se multiplicando (Atos 12.24 e 25).

O que nós temos neste capítulo?

Lucas está nos mostrando que ninguém consegue parar o evangelho. A chama não se apaga. Quando alguém se opõe ao evangelho, essa pessoa até poderá vencer algumas lutas ou apagar algumas labaredas do fogo, mas nunca vencerá a batalha e jamais apagará a chama do evangelho. Quem vive para o evangelho, pode até perder momentaneamente, mas no final será vitorioso. A chama não se apaga. Deus é o Todo Poderoso e nenhuma força impedirá a propagação do evangelho de Jesus Cristo. Eis o que profetizou Isaías:

Isaias 11.9 “Em todo o meu santo monte, não se fará mal nem haverá destruição, pois, como as águas enchem o mar, a terra estará cheia de gente que conhece o Senhor”.

O profeta está anunciando o período quando nenhuma nação ou predador será capaz de ferir mortalmente o povo de Deus, parando assim o avanço do evangelho. Esse é o tempo em que estamos vivendo (desde a primeira vinda de Jesus) e que será pleno quando Cristo voltar para estabelecer seu reino eterno.

Feitas essas considerações, desejo agora olhar para Atos 12 e compartilhar com vocês quatro lições que nos ajudarão quando o mau parecer vitorioso, a fé e a coragem do povo de Deus estiverem abaladas, a chama do amor pelo anúncio do evangelho estiver quase se apagando.

Eis as considerações:

Embora Deus seja Todo Poderoso, ele não impede que tragédias horríveis atinjam alguns dos seus servos mais piedosos (Atos 12.1 a 4).

Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele pode facilmente libertar seus servos de situações humanamente impossíveis (Atos 12.5 a 19).

Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele remove com facilidade os líderes humanos mais poderosos e orgulhosos que estiverem em seu caminho (Atos 12.20 a 23).

Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele não deixará que a chama do evangelho se apague por nenhuma oposição (Atos 12.24 e 25).

1 - Embora Deus seja Todo Poderoso, ele não impede que tragédias horríveis atinjam alguns dos seus servos mais piedosos (Atos 12.1 a 4).

Há um contraste marcante entre o amor da igreja racialmente misturada em Antioquia pela igreja judaica afligida pela fome na Judéia (Atos 11.27 a 30) e o ódio de Herodes e dos judeus em Jerusalém pela igreja de Jesus que lá existia (Atos 12.1 a 4). Observe:

Atos 11.27 a 12.4 “Durante esse tempo, alguns profetas viajaram de Jerusalém a Antioquia. Um deles, chamado Ágabo, pôs-se em pé numa das reuniões e predisse, pelo Espírito, que uma grande fome viria sobre todo o mundo romano. (Isso se cumpriu durante o reinado de Cláudio.) Então os discípulos de Antioquia decidiram enviar uma ajuda aos irmãos na Judeia, cada um de acordo com suas possibilidades. Foi o que fizeram, enviando as doações aos presbíteros por meio de Barnabé e Saulo. Por essa época, o rei Herodes Agripa começou a perseguir violentamente algumas pessoas da igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. Quando Herodes viu quanto isso agradava os judeus, também prendeu Pedro durante a celebração da Festa dos Pães sem Fermento. Depois, lançou-o na cadeia, sob a guarda de quatro escoltas, cada uma com quatro soldados. A intenção de Herodes era apresentar Pedro aos judeus para julgamento público depois da Páscoa”.

Nenhum ato perverso, nem mesmo a matança de justos e de piedosos, ocorre fora da vontade e dos decretos soberanos de Deus. Por exemplo: Deus não perdeu o controle quando Herodes Antipas ficou bêbado e deu a cabeça de João Batista num prato para a perversa e sensual filha de Herodias (Mateus 14.1 a 12), nem quando Tiago foi decapitado (Atos 12.1 e 2). Aliás, até mesmo as terríveis ações do anticristo nos tempos finais estarão sob o controle de Deus, pois ele o removerá quando for o tempo, mas, antes disso, muitas pessoas piedosas sofrerão e morrerão (Apocalipse 6.9 a 11). Há três lições práticas que podemos extrair do fato que, embora Deus seja Todo-Poderoso, ele não impede que tragédias horríveis atinjam alguns dos seus servos mais piedosos:

A - Aqueles que ensinam que é sempre a vontade de Deus nos curar de doenças, livrar de tragédias, fazer prosperar e afastar da morte são falsos profetas. (João 16.33 “Eu lhes falei tudo isso para que tenham paz em mim. Aqui no mundo vocês terão aflições, mas animem-se, pois eu venci o mundo”. 2Timoteo 4.20 “Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto”).

B - Deus não nos ama menos quando nos leva a atravessar os vales da sombra e da morte. (Salmos 116.15 “O Senhor se importa profundamente com [Preciosa é aos olhos do Senhor] a morte de seus fiéis”. Filipenses 1.21 a 23 “Pois, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Mas, se continuar vivo, posso trabalhar e produzir fruto para Cristo. Na verdade, não sei o que escolher. Estou dividido entre os dois desejos: quero partir e estar com Cristo, o que me seria muitíssimo melhor”).

C - Por mais difícil que seja, precisamos ver a morte da perspectiva eterna de Deus, não da nossa perspectiva temporal. (João 5.24 “Eu lhes digo a verdade: quem ouve minha mensagem e crê naquele que me enviou tem a vida eterna. Jamais será condenado, mas já passou da morte para a vida”. Mateus 25.21 “Entre na alegria do seu senhor”. Assim, a morte tão repentina e trágica de Tiago pelas mãos perversas de Herodes nos ensina que, embora Deus seja Todo Poderoso, ele não impede que tragédias horríveis atinjam alguns dos seus servos mais piedosos. Em tudo dai graças.

2 - Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele pode facilmente libertar seus servos de situações humanamente impossíveis (Atos 12.5 a 19)

Nenhuma prisão ou barreira de dificuldade pode trancar Deus do lado de fora de nossas circunstâncias ou manter a vida dos seus servos fora do raio de seu alcance se ele quiser liberá-los, socorrê-los ou resgatá-los. Deus nos acha onde estivermos. Deus poderia facilmente ter poupado Tiago, se essa tivesse sido a sua vontade, mas sabemos que não era; da mesma forma que não foi grande coisa para Deus tirar Pedro da prisão mais segura que Herodes poderia ter inventado. Talvez Herodes tivesse ouvido dos líderes judeus como Pedro e João escaparam misteriosamente da custódia romana alguns anos antes (Atos 5.17 a 20). O tirano queria ter certeza de que não aconteceria de novo.

Nós vamos ler o texto com três observações em mente:

A - Deus é mais glorificado quando estamos mais indefesos e totalmente dependentes dele.

B - Deus, muitas vezes, espera até a última hora para, então, nos socorrer, essa é à sua maneira de nos motivar a orar.

C - Deus não está limitado às orações de seu povo, mas ele trabalha através de nossas orações para nos ensinar a depender totalmente dele.

Observe: Atos 12.5 a 19 “Enquanto Pedro estava no cárcere, a igreja orava fervorosamente a Deus por ele. Na noite antes de Pedro ser levado a julgamento, ele dormia, preso com duas correntes entre dois soldados, e outros montavam guarda na porta da prisão. De repente, uma luz intensa brilhou na cela, e um anjo do Senhor apareceu. Tocou no lado de Pedro para acordá-lo e disse: Depressa! Levante-se! e as correntes caíram dos pulsos de Pedro. Então o anjo lhe disse: Vista-se e calce as sandálias, e Pedro obedeceu. Agora vista a capa e siga-me, ordenou o anjo.  Pedro deixou a cela, seguindo o anjo. O tempo todo, porém, pensava que era uma visão, sem entender que era real o que ocorria. Passaram o primeiro e o segundo postos de guarda e, quando chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade, o portão se abriu sozinho para eles. Os dois passaram e foram caminhando ao longo da rua até que, subitamente, o anjo o deixou. Por fim, Pedro caiu em si. É verdade mesmo! Disse ele. O Senhor enviou seu anjo para me salvar daquilo que Herodes e os judeus planejavam me fazer! Quando Pedro se deu conta disso, foi à casa de Maria, mãe de João Marcos, onde muitos estavam reunidos para orar. Ele bateu à porta da frente, e uma serva chamada Rode foi atender. Ao reconhecer a voz de Pedro, ficou tão contente que, em vez de abrir a porta, correu de volta para dentro dizendo a todos: Pedro está à porta! Eles, porém, disseram: Você está fora de si! Diante da insistência dela, concluíram: Deve ser o anjo dele. Enquanto isso, Pedro continuava a bater. Quando, por fim, abriram a porta e o viram, ficaram admirados. Ele fez um sinal para se acalmarem e lhes contou como o Senhor o havia tirado da prisão. Contem a Tiago e aos outros irmãos o que aconteceu, disse ele. Então foi para outro lugar. Ao amanhecer, houve grande alvoroço entre os soldados a respeito do que tinha acontecido a Pedro. Herodes ordenou que fosse feita uma busca completa por ele. Não conseguindo encontrá-lo, interrogou os guardas e mandou executá-los. Depois disso, Herodes partiu da Judeia e foi passar algum tempo em Cesaréia”.

Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele pode facilmente libertar seus servos de situações humanamente impossíveis. Curve-se em oração.

3 - Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele remove com facilidade os líderes humanos mais poderosos e orgulhosos que estiverem em seu caminho (Atos 12.20 a 23)

Herodes era um megalomaníaco incurável. Pobre coitado, pois foi cruzar justamente o caminho do Todo Poderoso.

Atos 12.20 a 23 “O rei Herodes estava muito irado com o povo de Tiro e Sidom [pois haviam diminuído a remessa de dinheiro das arrecadações para o palácio]. Assim, as duas cidades se uniram na tentativa de se reconciliar com o rei, pois dependiam de suas terras para obter alimento [note: enquanto a igreja se une para alimentar famintos (Atos 11.27 a 30), Herodes age para acentuar a fome, assim é o mundo! Então, tendo conquistado o apoio de Blasto, assistente pessoal do rei, conseguiram uma audiência. No dia marcado, Herodes, vestindo seus trajes reais, sentou-se em seu trono e fez um discurso para eles. O povo o ovacionava, gritando: É a voz de um deus, e não de um homem! No mesmo instante, um anjo do Senhor feriu Herodes com uma enfermidade, pois ele não ofereceu a glória a Deus. Foi comido por vermes e morreu”.

Flávio Josefo, o historiador judeu, faz um relato paralelo interessante sobre este incidente

(Antiguidades dos judeus): Então, quando Agripa tinha reinado durante três anos sobre toda a Judéia, ele veio à cidade de Cesaréia, que antes era chamada Torre de Strato, e lá apresentou espetáculos em honra a César. Foi informado de que ali havia um festival celebrado para se fazerem votos pela sua segurança. No festival, uma grande multidão de pessoas distintas tinha se reunido. No segundo dia de espetáculos, ele vestiu um traje feito totalmente de prata, e de uma contextura verdadeiramente maravilhosa, e veio para o teatro de manhã bem cedo. Quando a prata de seu traje foi iluminada pelo fresco reflexo dos raios do sol sobre ela, brilhou de uma maneira surpreendente, e ficou tão resplandecente que espalhou horror entre aqueles que olhavam firmemente para ele; e no mesmo instante seus bajuladores gritaram, a uma só voz (ainda que não para o bem dele), que ele era um deus; e acrescentavam: “Sê misericordioso conosco, pois ainda que até agora te tenhamos reverenciado somente como um homem, contudo doravante te teremos como superior à natureza mortal”. Quanto a isto o rei não os repreendeu, nem rejeitou sua ímpia bajulação. Mas, olhando para cima, viu uma coruja pousada numa corda sobre a sua cabeça, e imediatamente entendeu que esse pássaro era um mensageiro de más notícias, como tinha sido antes mensageiro de boas notícias; e caiu na mais profunda tristeza. Uma dor severa também apareceu no seu abdome, e começou de maneira muito violenta. Ele olhou para seus amigos e disse: “Eu, a quem chamais deus, estou sendo chamado a partir desta vida; a Providência reprova as palavras mentirosas que vós agora mesmo me disseram; e eu, que por vós fui chamado imortal, tenho que ser imediatamente afastado depressa para a morte.” Quando ele acabou de dizer isto, sua dor se tornou ainda pior. Desse modo, ele foi carregado para dentro do palácio; e o rumor espalhou-se por toda parte, que ele certamente morreria dentro de pouco tempo. E quando ele tinha se esgotado muito pela dor no seu abdome durante cinco dias, ele partiu desta vida [comido por vermes].

Honestamente, Herodes sabia o suficiente sobre Deus para ter visto a mão dele na libertação de Pedro da prisão e perceber que estava lutando contra o Todo-Poderoso. Ele deveria ter se lembrado da história do rei Nabucodonosor, a quem Deus humilhou por causa do orgulho (Daniel 4). Em vez disso, Herodes aceitou a adulação das pessoas que estavam sob seu poder. Como ele não deu a Deus a devida glória, Deus usou uma teníase para derrubá-lo, Deus usou uma parasitose intestinal, decorrente da ingestão de cisticercos (larvas); o verme adulto, no intestino humano, provoca aumento da motilidade intestinal e inflamação crônica. Sim, Herodes foi tombado por parasitas intestinais! Quem diria? Deus tem suas formas de tirar os obstáculos de seu caminho.

Observe duas lições:

Buscar glória para nós mesmos é declarar guerra contra Deus.

Declarar guerra contra Deus é cometer suicídio eterno, pois ele é o Todo Poderoso.

Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele remove com facilidade os líderes humanos mais poderosos e orgulhosos que estiverem em seu caminho. Mantenha a fé.

4 - Uma vez que Deus é Todo Poderoso, ele não deixará que a chama do evangelho se apague por nenhuma oposição (Atos 12.24 e 25)

Veja como Lucas encerra esse capítulo:

Atos 12.24 e 25 “Enquanto isso, a palavra de Deus continuava a se espalhar, e havia muitos novos convertidos. Quando Barnabé e Saulo terminaram sua missão em Jerusalém, voltaram levando consigo João Marcos”. Essa narrativa prepara o palco para a expansão do evangelho entre os gentios através do ministério de Paulo, o que compreenderá o resto do livro de Atos. Herodes e os judeus se opuseram ao Salvador enviado por Deus e sofreram sob o seu julgamento. Os apóstolos e a igreja primitiva sofreram muito, e muitos morreram de mortes violentas, mas a palavra de Deus continuou a crescer e a ser multiplicada. Deus os recompensou abundante e eternamente no céu. Uma vez que Deus é Todo-Poderoso, ele não deixará que a chama do evangelho se apague por nenhuma oposição. Siga com esperança e amor, pregando o evangelho.

A chama não se apaga

Eis o resumo da nossa conversa: Se o Deus Todo Poderoso nos livra da perseguição ou se nós morremos por causa da nossa fé, não importa, devemos nos comprometer totalmente com o avanço e a promoção de seu evangelho.

Ouça essa história:

John Paton (John G. Paton, Autobiography [Banner of Truth], pp. 84-85, 496). nasceu na Escócia em 1824. Jovem cristão, trabalhou como missionário da cidade nas favelas de Glasgow, mas logo sentiu o chamado de Deus para levar o evangelho aos ferozes canibais das ilhas das Novas Hébridas no Pacífico Sul (hoje, Vanuatu). John Williams e James Harris fizeram a primeira tentativa de levar o evangelho para lá em 1839. Foram mortos a cacetadas e comidos pelos selvagens logo nos primeiros minutos de sua chegada. Paton tinha acabado de se casar. Ele e sua esposa chegaram a Vanuatu em 5 de novembro de 1858. Em 12 de fevereiro de 1859, ela deu à luz um filho, mas no dia 3 de março morreu de complicações após o parto. Em 20 de março, o bebê morreu. Claro que Paton lutou com sua dor e sua solidão. Pouco antes de sua esposa morrer, ela expressou seu desejo de que sua mãe pudesse estar lá com ela. Então ela acrescentou, Você não deve pensar que me arrependi de ter deixado minha mãe e ter vindo para cá. Se eu tivesse a chance eu faria tudo de novo, e faria com muito mais prazer, sim, com todo o meu coração. Ah não! Não me arrependo de ter deixado casa e amigos, embora no momento eu não sinta isso com entusiasmo.

Suas palavras, momentos antes de morrer, foram as seguintes: “Nada perdido, apenas partindo mais cedo para estar para sempre com o Senhor.” Paton viveu até a casa dos 70, dedicando-se à causa do evangelho entre aqueles canibais, experimentando muitas libertações divinas. No final de sua vida, ele exclamou: Oh, que eu tivesse minha vida para começar de novo! Eu consagrá-la-ia de novo a Jesus na busca da conversão dos demais canibais nas Novas Hébridas. Lá no início de tudo, ainda jovem e destemido, dando resposta a um irmão idoso, que tentava desencorajá-lo de ir para o campo missionário, afinal, todos sabiam da terrível fama dos moradores das Ilhas Novas Hébridas, Paton respondeu: Veja bem, senhor Dickson, em pouco tempo o senhor morrerá e será colocado numa cova. Lá, os vermes e minhocas comerão o seu corpo. Quanto a mim, eu confesso ao senhor, se eu tiver que viver e morrer servindo ao Senhor Jesus Cristo, não fará qualquer diferença se eu for comido por vermes, minhocas ou canibais; já que na ressurreição dos mortos eu receberei um corpo glorificado, tanto quanto o senhor!

De onde vinha a alegria para viver e para morrer de que John Paton dispunha? Ouça um trecho retirado de seu diário: Durante as crises, geralmente eu me sento calmo e com a alma firme, sempre em pé, ereta e inabalável, com todo o peso da promessa de Deus: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”. Promessa preciosa! Quantas vezes eu adoro a Jesus por ela e nela me regozijo! Louvado seja o seu nome! Sem a consciência permanente da presença e do poder do meu querido Senhor e Salvador, nada mais no mundo todo poderia ter me preservado de perder a minha sanidade e perecer miseravelmente. Em suas palavras: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”, Jesus tornou-se para mim tão real que não me surpreenderia se eu o visse, em pé nós céus, pronto para me receber, da mesma forma que Estevão o viu e por ele foi recebido. Eu senti o seu poder sustentador. Seja qual for o custo, com a promessa de Jesus no coração, em doce comunhão com ele na Palavra e na oração, que todos possamos comprometer-nos com a causa do evangelho de Jesus Cristo, a chama que não se apaga!

Em tudo dai graças, curve-se em oração, mantenha a fé e siga com esperança e amor, pregando o evangelho da graça de Deus.

Fale comigo: mapirola@yahoo.com

Atos dos apóstolos 28 - A origem do nome cristão

 


Atos 11.1 a 30

Atos 11.25 e 26 “Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo. Quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Ali permaneceram com a igreja um ano inteiro, ensinando a muitas pessoas. Foi em Antioquia que os discípulos foram chamados de cristãos pela primeira vez”.

Distintivo de honra

O significado que hoje se dá para o adjetivo cristão é bem diferente daquele usado pelas Escrituras. Em nossos dias, qualquer um que diz acreditar em Deus e julga pertencer a uma religião denominada “cristã”, mesmo que não a frequente com regularidade, acha-se no direito de dizer que é cristão. Para eles, não importa o conteúdo da fé, o compromisso com a comunidade local nem a conduta de vida que adotam. Aliás, alguns são tão depravados em sua forma de viver que de maneira alguma fazem justiça ao nome.

A primeira vez que os discípulos de Jesus foram chamados de cristão foi na cidade de Antioquia, conforme nós acabamos de ler no relato de Lucas. O termo significa “do partido de Jesus” e, provavelmente, foi usado pela primeira vez como forma de desdém ou de escárnio. Mas parece que os discípulos de Jesus gostaram do “apelido”.

Pedro, por exemplo, quando escreveu para encorajar os eleitos de Cristo que viviam dispersos, como estrangeiros e peregrinos, por causa da perseguição, disse assim:

1 Pedro 4.14 a 16 “Se vocês forem insultados por causa do nome de Cristo, abençoados serão, pois, o glorioso Espírito de Deus repousa sobre vocês. Se sofrerem, porém, que não seja por matar, roubar, causar confusão ou intrometer-se em assuntos alheios. Mas, se sofrerem por ser cristãos, não se envergonhem, louvem a Deus por serem chamados por esse nome”.

O termo que foi usado para desdenhar havia se tornado um distintivo de honra para a igreja primitiva. O historiador Eusébio (século 4 a.C.), falando de um certo mártir da igreja cujo nome era Sanctus, relata que aos seus torturadores, quando eles o provocavam ou o indagavam, ele simplesmente respondia: “Eu sou um cristão”.

O nome “cristão”, portanto, era e ainda deve ser um distintivo de honra para os discípulos de Jesus Cristo. Sendo assim, convido você para investigarmos o capítulo 11 de Atos e juntos descobrirmos como os discípulos viviam e o que eles faziam que fez os moradores de Antioquia chamá-los de “cristãos”.

Há três qualidades naqueles discípulos que desejo destacar com vocês. Elas juntas fizeram o mundo chamá-los de cristãos. Veremos que cristãos são um povo de braços abertos, boca aberta e bolso aberto. Simples assim, mas profundamente impactante e revolucionário.

Veja

1 - Um povo de braços abertos

A primeira coisa que nós observamos sobre os discípulos de Jesus e que deve ter impressionado a população de Antioquia é eles eram pessoas de braços abertos para receber pessoas diferentes, eles não eram fechados para outros povos e raças, a fé que eles proclamavam era para todos. Essa diversidade impressionava o mundo antigo. Porém, não se engane achando que nunca houve necessidade de alguns ajustes internos, para que eles pudessem abrir os braços para outros povos e raças. Veja o texto.

Atos 11.1 a 3 “Logo chegou aos apóstolos e a outros irmãos da Judeia a notícia de que os gentios haviam recebido a palavra de Deus. Mas, quando Pedro voltou a Jerusalém, os discípulos judeus o criticaram, dizendo: Você entrou na casa de gentios e até comeu com eles”.

Lembrem-se de que Pedro havia sido convencido pelo próprio Deus de que a fé cristã era também para outros povos e raças, não apenas para os judeus. Foi o que nós vimos na última mensagem, quando estudamos Atos 10. Agora, porém, o “Conselho” de Jerusalém e da Judeia precisava ser, igualmente, convencido.

Pedro, então, de boa vontade, passa a justificar as suas ações. Como ele o faz? 

O apóstolo narra como Deus trabalhou, ao mesmo tempo, nos dois lados, mostrando tanto a ele como a Cornélio que deveriam se encontrar. Pedro precisaria apresentar a Cornélio o evangelho, e Cornélio precisaria abrir o coração para a mensagem de Pedro.

Atos 11.4 e 5 “Então Pedro lhes contou exatamente o que havia acontecido. Disse…. Ao narrar Tim-Tim por Tim-Tim os fatos, até o final do verso 18, Pedro manteve a ordem cronológica. Seu relato foi tão preciso e tão detalhado que os irmãos de Jerusalém e da Judeia tiveram a chance de reviver a experiência com Pedro.

Quatro pontos são marcantes na revisão que Pedro fez de sua história com os gentios:

A - A visão sobre a queda das barreiras étnicas veio de Deus

Atos 11.5 a 10 “Eu estava na cidade de Jope e, enquanto orava, num êxtase, tive uma visão. Algo semelhante a um lençol grande foi baixado do céu, preso pelas quatro pontas, vindo até onde eu estava. Quando olhei dentro do lençol, vi toda espécie de animais domésticos e selvagens, répteis e aves. E ouvi uma voz dizer: Levante-se, Pedro, mate e coma. Eu respondi: De modo nenhum, Senhor! Jamais comi coisa alguma que fosse considerada impura ou imprópria. Mas a voz do céu falou novamente: Não chame de impuro o que Deus purificou. Isso aconteceu três vezes, antes que o lençol, com tudo que ele continha, fosse recolhido ao céu”. 

B - A ordem para seguir os servos de Cornélio também veio de Deus

Atos 11.11 e 12 “Nesse momento, três homens que haviam sido enviados de Cesaréia chegaram à casa onde eu estava hospedado. O Espírito me disse que eu fosse com eles, sem nada questionar. Esses seis irmãos me acompanharam, e logo entramos na casa do homem que havia mandado nos buscar”.

C - A ação preparatória de Deus

Atos 11.13 e 14 “Ele nos contou como um anjo havia aparecido em sua casa e dito: Envie mensageiros a Jope e mande buscar Simão, também chamado Pedro. Ele lhe dirá como você e toda a sua casa podem ser salvos”.  

D - A vinda do Espírito Santo

Atos 11.15 a 17 “Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, como ocorreu conosco, no princípio. Então me lembrei das palavras do Senhor, quando ele disse: João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo. E, uma vez que Deus deu a esses gentios a mesma dádiva que concedeu a nós quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para me opor a Deus”.

Lucas, então, nos conta como foi a reação dos judeus convertidos ao cristianismo:

Atos 11.18 “Ao ouvirem isso, pararam de levantar objeções e começaram a louvar a Deus, dizendo: Vemos que Deus deu aos gentios o mesmo privilégio de se arrepender e receber a vida eterna”.

Agora todos estavam no barco de Pedro, de braços abertos para receberem os convertidos de todas as tribos, povos, línguas e nações. Pois bem, barreiras derrubadas, como eles procedem? De que forma eles abrem os braços para acolher e abençoar os novos crentes?

Atos 11.22 a 26 “Quando a igreja de Jerusalém soube do que havia acontecido (o grande número de conversões em Antioquia atos 11.19 a 21), enviou Barnabé a Antioquia. Ao chegar ali e ver essa demonstração da graça de Deus, alegrou-se muito e incentivou os irmãos a permanecerem fiéis ao Senhor. Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma grande multidão se converteu ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo. Quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Ali permaneceram com a igreja um ano inteiro, ensinando a muitas pessoas. Foi em Antioquia que os discípulos foram chamados de cristãos pela primeira vez”.

Observe comigo algumas atitudes de quem tem braços abertos para acolher:

A - Oferece-se o que se tem de melhor para abençoar, não foi enviado um apóstolo, mas o melhor pastor que eles tinham: Barnabé (Atos 11.22).

B - Alegra-se com o mover de Deus na vida dos outros, Barnabé, ao chegar em Antioquia e ver (note o que ele viu) a “demonstração da graça de Deus”, ficou muito alegre (Atos 11.23).

C - Derrama-se bondade e amor na vida dos outros, Barnabé era bom (Atos 11.24).

 D - Divide-se o trabalho com outras pessoas, mesmo que elas sejam melhores, Barnabé buscou Paulo e o colocou no centro do palco da obra missionária (Atos 11.25).

E - Gasta-se tempo com as pessoas para poder discipulá-las, Barnabé e Paulo “permaneceram com a igreja um ano inteiro, ensinando a muitas pessoas” (Atos 11.26).

Os cristãos precisam ser conhecidos como um povo de braços abertos para receber, acolher, cuidar e discipular o pecador. Não podemos ser, por exemplo, como foi determinada igreja na vida de Mahatma Gandhi.

Li que, em sua autobiografia, Gandhi registra que em seu tempo de estudante na Inglaterra ele foi profundamente tocado pela leitura dos Evangelhos e, portanto, considerou seriamente a possibilidade de tornar-se cristão. Sua impressão era que a fé cristã poderia oferecer uma verdadeira solução para o sistema de castas que dividia o povo da Índia. Então, num domingo, decidiu participar do culto de uma igreja e pedir ao pastor que lhe esclarecesse algumas coisas sobre salvação e outras doutrinas. Mas quando ele entrou no santuário, alguém da equipe de introdução se recusou a levá-lo a um assento e sugeriu que Gandhi fosse a outro lugar para adorar com seu próprio povo. De lá ele saiu e nunca mais voltou. A declaração dele para si mesmo, após o episódio, foi a seguinte:

Se entre os cristãos também há diferenças de casta, eu posso muito bem permanecer como um hindu!

Há um pequeno poema adaptado por Edwin Markham que bem expressa a realidade de algumas “castas” que se denominam cristãs em contraste com a graça de Jesus Cristo: Alguns desenham um círculo que deixa outros de fora, Status e posição é tudo pelo que se implora, Mas Cristo, em amor, com todos se importa, Ele desenha um círculo e abre-lhes a porta! Os cristãos devem ser um povo de braços abertos.

2 - Um povo de boca aberta

Quando eu era menino, havia uma expressão popular bastante usada para definir o indivíduo que por tudo se admira, o indivíduo simplório, ou a pessoa lerda: “boca-aberta”.

Não é dessa forma que estamos usando a expressão “boca aberta”. Boca aberta para nós significa falar de Jesus para todo mundo, não se conter com o evangelho da graça, falar e não se calar por onde quer que se vá. Dessa forma, os primeiros cristãos eram sim um bando de boca aberta.

Observe:

Atos 11.19 a 21 “Enquanto isso (enquanto Pedro se explicava em Jerusalém), os discípulos que haviam sido dispersos na perseguição depois da morte de Estêvão chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia da Síria. Pregaram a palavra, mas somente aos judeus. Contudo, alguns dos discípulos que foram de Chipre e Cirene até Antioquia começaram a anunciar aos gentios as boas-novas a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos desses gentios creram e se converteram ao Senhor”.

Os cristãos, sob quaisquer circunstâncias, são chamados a falar do amor de Deus. Irmãos, se não vemos nossas igrejas mais cheias, talvez seja porque não estamos abrindo muito a boca para falar da graça de Jesus Cristo aos que cruzam os nossos caminhos. 

Certa feita, em Corinto, tomado pelo medo, Paulo ouviu o Senhor lhe dizer:

Atos 18.9 a 11 “Certa noite, o Senhor falou a Paulo numa visão: Não tenha medo! Continue a falar e não se cale, pois estou com você, e ninguém o atacará nem lhe fará mal, porque muita gente nesta cidade me pertence. Então Paulo permaneceu ali um ano e meio, ensinando a palavra de Deus”.

A Timóteo, Paulo, anos mais tarde, escreveu:

2 Timóteo 4.1 a 5 “Eu lhe digo solenemente, na presença de Deus e de Cristo Jesus, que um dia julgará os vivos e os mortos quando vier para estabelecer seu reino: pregue a palavra. Esteja preparado quer a ocasião seja favorável, quer não. Corrija, repreenda e encoraje com paciência e bom ensino. Pois virá o tempo em que as pessoas já não escutarão o ensino verdadeiro. Seguirão os próprios desejos e buscarão mestres que lhes digam apenas aquilo que agrada seus ouvidos. Rejeitarão a verdade e correrão atrás de mitos. Você, porém, deve manter a sobriedade em todas as situações. Não tenha medo de sofrer. Trabalhe para anunciar as boas-novas e realize todo o ministério que lhe foi confiado”. Os cristãos devem ser um povo de boca aberta.

3 - Um povo de bolso aberto

Além de braços abertos e de boca aberta, os cristãos são um povo de bolso aberto.

Atos 11.27 a 30 “Durante esse tempo, alguns profetas viajaram de Jerusalém a Antioquia. Um deles, chamado Ágabo, pôs-se em pé numa das reuniões e predisse, pelo Espírito, que uma grande fome viria sobre todo o mundo romano. (Isso se cumpriu durante o reinado de Cláudio.) Então os discípulos de Antioquia decidiram enviar uma ajuda aos irmãos na Judeia, cada um de acordo com suas possibilidades. Foi o que fizeram, enviando as doações aos presbíteros por meio de Barnabé e Saulo”.

Veja que Ágabo, com discernimento divino, faz um diagnóstico: haverá uma grande fome. A profecia não era para assustar, mas para mobilizar. Os discípulos, por sua vez, abrem o bolso e ofertam com amor aos seus novos irmãos de fé que moravam na Judeia, seus “pais” na fé.

Nossos braços abertos para acolher o pecador fazem expandir a obra de Deus, já a boca aberta, falando do evangelho, consolida a obra de Deus, e nossos bolsos abertos, abençoando e sustentando, autenticam a obra de Deus através das obras de nossas mãos. Os cristãos devem ser um povo de bolso aberto.

A origem do nome “cristão”

O nome cristão foi pela primeira vez aplicado aos discípulos de Jesus porque aquela gente tinha os braços abertos para acolher o pecador, a boca aberta para falar do evangelho e o bolço aberto para abençoar pessoas e sustentar a obra de Deus.

Você é assim?

Tem seus braços abertos, abre a boca para falar, abre o bolso para dizimar e ofertar?

Nossa igreja é assim?

Somos um povo de braços abertos para os que nos visitam ou chegam aqui?

Abrimos a boca para anunciar o evangelho e para convidar as pessoas?

Dizimamos e ofertamos como nos convém fazer?

Sejamos também chamados de cristãos, o mesmo tipo de cristãos que havia em Antioquia: com braços abertos, boca aberta e bolsos abertos.

Façamos justiça ao nome de cristão.

Que o Senhor nos abençoe com graça, misericórdia e paz.

Fale comigo: mapirola@yahoo.com

Atos dos apóstolos 27 - Salvação ao alcance de todos

 


Atos 10.1 a 48

Atos 10.9 a 16 “No dia seguinte, quando os mensageiros de Cornélio se aproximavam da cidade, Pedro subiu ao terraço para orar. Era cerca de meio-dia, e ele estava com fome. Enquanto a refeição era preparada, entrou num êxtase. Viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol ser baixado por suas quatro pontas. No lençol havia toda espécie de animais, répteis e aves. Então uma voz lhe disse: Levante-se, Pedro, mate e coma. De modo nenhum, Senhor, respondeu Pedro. Jamais comi coisa alguma que fosse considerada impura e imprópria. Mas a voz falou novamente: Não chame de impuro o que Deus purificou. A mesma visão se repetiu três vezes. Então, subitamente, o lençol foi recolhido ao céu”.

Preconceito

Todo mundo sofre de preconceito. Alguns sofrem com o preconceito, mas todos, inclusive quem sofre com o preconceito, de uma forma ou de outra, formam seus conceitos ou suas opiniões antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos. Todo mundo tem suas ideias preconcebidas sobre alguém ou alguma coisa.

Por exemplo:

O motorista: você já reparou que a pessoa dirigindo mais devagar do que você é sempre molenga, enquanto aquela dirigindo mais rápido é sempre maluca?

Pedestre e motorista: você já notou que, ao caminhar pelas ruas, o motorista nunca respeita você, enquanto você ao volante sempre acha o pedestre um folgado?

Por que nós somos assim, gente? Por causa do pecado! Pela natureza caída, somos todos propensos a justificar a nós mesmos e a condenar aqueles que são diferentes de nós. Somos propensos a julgar os outros de acordo com características exteriores, ao invés de aceitá-los como seres humanos individuais em pé de igualdade conosco.

Os gregos da antiguidade, por exemplo, dividiram a raça humana em duas categorias: Gregos e bárbaros. O bárbaro era, literalmente, alguém que não falava o grego. Para os gregos as palavras dos outros soavam de forma estranha aos seus ouvidos; era um “bar, bar, bar” irritante. Um historiador grego perguntou, retoricamente: “Como podem os homens que só conseguem latir sempre governar o mundo”.

Para se ter uma ideia, Aristóteles (384 a.C a 322 a.C.) acreditava que o clima das regiões do mundo mantinha a diferença entre gregos e bárbaros. Ele argumentava que os nativos das terras frias, ao norte, Europa, eram espirituosos e tinham muita coragem, mas pouca habilidade e inteligência, por isso eles tinham pouca organização política e eram incapazes de reinar sobre os outros. Já os nativos das terras quentes, ao sul, Ásia, eram dotados de muita habilidade, inteligência e cultura, mas pouca valentia e coragem, por isso eles vivam em constante estado de sujeição e escravidão. Agora, para Aristóteles, somente os gregos (a raça helênica) viviam em um clima projetado pela natureza para produzir o caráter perfeitamente misturado, por isso eles eram livres, tinham a nação mais bem governada e teriam a capacidade de reinar sobre o mundo (confira, Aristóteles, A Política, livro 7, parte 7).

Podemos rir com a teoria de Aristóteles, mas somos todos, de alguma forma, propensos ao preconceito. No entanto, para que Deus nos use efetivamente em seus propósitos, ele deve nos quebrar de nossos preconceitos.

Advertência

Cabe, a esta altura, um esclarecimento. Não estamos dizendo que devemos ser tolerantes ou aceitar práticas que a Bíblia chama de pecado. Também não estamos afirmando que devemos nos juntar aos festejos dos pecadores como se não houvesse diferença entre os prazeres deles e os nossos. O que estamos buscando é enfrentar nossos preconceitos, permitindo que Deus os desenterre e os lance fora, pois de outra forma nós não seremos capazes de ultrapassar barreiras culturais e pessoais com o evangelho de Jesus Cristo.  

Pense comigo:

Se você é preconceituoso contra: Os que são de outra raça. Quem tem cor de pele diferente da sua. Aqueles que vivem noutra camada social. Os que pertencem a outro grupo ideológico ou educacional. Como irá alcançá-los com o evangelho?

Se você odeia, por exemplo, os homossexuais ou transgêneros (o povo, não o pecado), como os levará a Jesus Cristo?

Se você se afasta de jovens com piercings corporais e tatuagens, como Deus poderá usá-lo para levar o evangelho a eles?

Se você não caminha duas, três, mil milhas com os fumantes e beberrões de sua família, afastando-se deles, como testemunhará a eles da graça do evangelho de Jesus?

Nossa intolerância deve ser contra o pecado, e não o pecador. De outra forma, como veremos pessoas convertidas a Jesus Cristo e salvas pelo evangelho da graça de Deus?

Paulo sabia disso e disse assim:

1 Coríntios 6.9 a 11 “Vocês não sabem que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não se enganem: Aqueles que se envolvem em imoralidade sexual, adoram ídolos, cometem adultério, se entregam a práticas homossexuais, são ladrões, avarentos, bêbados, insultam as pessoas ou exploram os outros não herdarão o reino de Deus. Alguns de vocês eram assim, mas foram purificados e santificados, declarados justos diante de Deus no nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus”.

Como isso foi possível? Como essas pessoas abandonaram seus pecados tão terríveis e se converteram a Jesus Cristo? A graça de Deus os alcançou, a graça de Deus chegou até eles através de pessoas que, apesar de odiarem o pecado, deixaram de lado seus preconceitos, seus gostos pessoais e amaram e se relacionaram com o pecador. Paulo, de novo, é muito útil neste ponto, ele que um dia odiou e procurou matar quem pensava diferente dele: Os gentios.

Observe:

1Corintios 9.19 a 23 “Embora eu seja um homem livre, fiz-me escravo de todos para levar muitos a Cristo. Quando estive com os judeus, vivi como os judeus para levá-los a Cristo. Quando estive com os que seguem a lei judaica, vivi debaixo dessa lei. Embora não esteja sujeito à lei, agi desse modo para levar a Cristo aqueles que estão debaixo da lei. Quando estou com os que não seguem a lei judaica, também vivo de modo independente da lei para levá-los a Cristo. Não ignoro, porém, a lei de Deus, pois obedeço à lei de Cristo. Quando estou com os fracos, também me torno fraco, pois quero levar os fracos a Cristo. Sim, tento encontrar algum ponto em comum com todos, fazendo todo o possível para salvar alguns. Faço tudo isso para espalhar as boas-novas e participar de suas bênçãos”.

O amor salvador e transformador de Jesus é para todos:

Gálatas 3.26 a 29 “Pois todos vocês são filhos de Deus por meio da fé em Cristo Jesus. Todos que foram unidos com Cristo no batismo se revestiram de Cristo. Não há mais judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus. E agora que pertencem a Cristo, são verdadeiros filhos de Abraão, herdeiros dele segundo a promessa de Deus”.

Em Cristo, todas as barreiras foram derrubadas:

Efésios 2.14 “Porque Cristo é nossa paz. Ele uniu judeus e gentios em um só povo ao derrubar o muro de inimizade que nos separava”.

A forma como Deus começou a “derrubar o muro de inimizade” está relatada no texto que nós temos para hoje: Atos 10.1 a 48. Este texto, porém, vai além de descrever a queda do muro de inimizade, ele também revela como a salvação está ao alcance de todos. Sem esta iniciativa de Deus é bem provável que o evangelho de Jesus teria ficado circunscrito à Jerusalém, Judeia e Samaria, sem jamais chegar aos confins da terra, sem nunca ter nos alcançado. No entanto, pela graça de Deus, a chama do evangelho não se extinguiu e aqui neste texto nós aprendemos como Deus derrubou o muro que separava judeus dos demais povos e como a salvação está disponível a todos os que crerem.

Observem comigo seis elementos que descrevem como a salvação alcança o pecador.

1 - Preparação soberana

Os eventos momentosos da inclusão gentílica na igreja e a salvação de Cornélio requereram preparação soberana. Tanto o convertido, Cornélio como o pregador, Pedro receberam visões de Deus preparando-os para o que viria a seguir.

A preparação de Cornélio: Cornélio tinha tudo que a maioria das pessoas de bem deseja ter: Carreira, status social, religiosidade, família estruturada, respeito das pessoas… nada disso, porém, apesar de toda a sua boa-vontade, era suficiente para preencher seu coração e garantir-lhe salvação.

Atos 10.1 a 8 “Morava em Cesaréia um oficial do exército romano chamado Cornélio, capitão do Regimento Italiano. Era um homem devoto e temente a Deus, como era também toda a sua família. Dava aos pobres esmolas generosas e sempre orava ao Senhor. Certa tarde, por volta das três horas, teve uma visão na qual viu um anjo de Deus vir em sua direção e dizer: Cornélio. Temeroso, Cornélio olhou fixamente para o anjo e perguntou: Que é, senhor? E o anjo respondeu: Suas orações e esmolas subiram até Deus, e ele as guarda na memória. Agora, envie alguns homens a Jope e mande buscar Simão, também chamado Pedro. Ele está hospedado com Simão, um homem que trabalha com couro e mora à beira do mar. Assim que o anjo foi embora, Cornélio chamou dois servos de sua casa e um soldado devoto de seu grupo de auxiliares. Ele lhes contou o que havia acontecido e os enviou a Jope”.

A preparação de Pedro: Pedro trazia consigo as chaves do reino (Mateus 16.19): Ele tinha autoridade para receber pecadores no reino de Deus através da pregação do evangelho da graça de Deus. Essa mesma autoridade têm todos quantos receberam o evangelho e agora o repartem com quem ainda não o tem. O evangelho são as chaves do reino. Tanto o são que, por não pregarem o evangelho, os fariseus trancavam “a porta do reino dos céus na cara das pessoas” (Mateus 23.13).

Em Atos, Pedro é o apóstolo que primeiramente pregou o evangelho do reino aos judeus em pentecostes (Atos 2), aos samaritanos (Atos 8) e, agora, aos gentios (Atos 10, 15.7). Só que, para pregar aos gentios, Deus precisou preparar Pedro:

Atos 10.9 a 20 “No dia seguinte, quando os mensageiros de Cornélio se aproximavam da cidade, Pedro subiu ao terraço para orar. Era cerca de meio-dia, e ele estava com fome. Enquanto a refeição era preparada, entrou num êxtase. Viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol ser baixado por suas quatro pontas. No lençol havia toda espécie de animais, répteis e aves. Então uma voz lhe disse: Levante-se, Pedro, mate e coma. De modo nenhum, Senhor! respondeu Pedro. Jamais comi coisa alguma que fosse considerada impura e imprópria. Mas a voz falou novamente: Não chame de impuro o que Deus purificou. A mesma visão se repetiu três vezes. Então, subitamente, o lençol foi recolhido ao céu. Pedro ficou perplexo, pensando em qual seria o significado da visão. Nesse momento, os homens que Cornélio tinha enviado encontraram a casa de Simão. Eles se aproximaram do portão e perguntaram se estava hospedado ali Simão, também chamado Pedro. Enquanto Pedro ainda refletia sobre a visão, o Espírito lhe disse: Três homens vieram procurá-lo. Levante-se, desça e vá encontrar-se com eles. Não hesite em acompanhá-los, pois eu os enviei”.

Cornélio respondeu prontamente à ordem de Deus, enquanto Pedro precisou que Deus lhe apresentasse três vezes a mesma visão. Quantas vezes Deus precisa falar, revelando os nossos preconceitos, para nos convencermos de que todos são igualmente carentes da graça de Deus, para nos convencermos de que Deus deseja que todos se salvem?

Para se ter uma ideia do preconceito que judeus nutriam contra gentios, cito a descrição feita por Alfred Edersheim, estudioso da vida e do cotidiano nos tempos de Jesus: Toda criança gentia, tão logo nascesse, seria considerada impura… A Mishná, tradição oral da lei judaica, vai tão longe à ponto de proibir socorro a uma mãe gentia na hora de sua necessidade ou alimento para seu filho, a fim de não se criar um filho de idolatria! …Não era considerado seguro deixar o gado sob seus cuidados, permitir que suas mulheres amamentassem lactentes, que seus médicos atendessem aos doentes, nem que se caminhasse na companhia deles… Tanto eles como os seus eram corrompidos (sujos), suas casas eram impuras, pois continham ídolos e coisas dedicadas a tais, suas festas, suas ocasiões alegres e o próprio contato deles era poluído pela idolatria, e não era seguro deixar um pagão sozinho em uma sala de jantar, para que ele não  contaminasse o vinho ou a carne sobre mesa, ou o óleo e o trigo na despensa… Leite tirado por um pagão, caso um judeu não estivesse presente para observar, além do pão e do óleo preparado por eles, era considerado ilegal. Seu vinho era terminantemente proibido, o simples toque de um pagão poluía um barril inteiro, até mesmo chegar ao nariz ao cálice do vinho pagão era estritamente proibido.

Pedro, realmente, precisava ser preparado por Deus. De outra forma, ele jamais teria usado as chaves do reino para abrir a porta da salvação para os gentios. Curiosamente, a mesma Jope de onde Jonas partiu para fugir do comissionamento divino, foi a Jope de onde Pedro partiu para levar o evangelho aos gentios.

Deus, soberanamente, havia preparado tanto Cornélio como Pedro.

2 - Submissão da vontade

O segundo elemento que descreve como a salvação alcança o pecador é a submissão da vontade. Diante da iniciativa soberana de Deus, o homem responde com obediência. No nosso texto, tanto Pedro como Cornélio foram obedientes à voz soberana de Deus.

Atos 10.21 a 33 “Pedro desceu e disse aos homens: Eu sou quem vocês procuram. Por que vieram. Eles responderam: Cornélio, um oficial romano, nos enviou. Ele é um homem devoto e temente a Deus, respeitado por todos os judeus. Um santo anjo o instruiu a chamar o senhor à casa dele para que ele ouça sua mensagem. Então Pedro convidou os homens para se hospedarem ali aquela noite. No dia seguinte, foi com eles, acompanhado de alguns irmãos de Jope. Chegaram a Cesaréia no dia seguinte. Cornélio os esperava e havia reunido seus parentes e amigos íntimos. Quando Pedro chegou à casa, Cornélio veio ao seu encontro e prostrou-se diante dele, adorando-o. Mas Pedro o levantou e disse: Fique de pé! Eu sou apenas um homem como você”. Os dois conversaram e depois entraram na casa, onde muitos outros estavam reunidos. Pedro lhes disse: Vocês sabem que nossas leis proíbem que um judeu entre num lar gentio como este ou se associe com os gentios. No entanto, Deus me mostrou que não devo mais considerar ninguém impuro ou impróprio. Por isso, vim assim que fui chamado, sem levantar objeções. Agora digam por que vocês mandaram me buscar. Cornélio respondeu: Quatro dias atrás, eu estava orando em casa por volta deste mesmo horário, às três da tarde. De repente, um homem vestido com roupas resplandecentes apareceu diante de mim. Ele me disse: Cornélio, Deus ouviu sua oração e se lembrou de suas esmolas. Agora, envie mensageiros a Jope e mande buscar Simão, também chamado Pedro. Ele está hospedado na casa de Simão, um homem que trabalha com couro e mora à beira do mar. Assim, mandei buscá-lo de imediato, e foi bom que tenha vindo. Agora estamos todos aqui, esperando diante de Deus para ouvir a mensagem que o Senhor mandou que você nos trouxesse”.

Impressionante! Cornélio foi obediente ao se dispor a ouvir e Pedro ao se dispor a ir. Eu e você precisamos ser obedientes se quisermos ver a salvação se espalhar e a igreja crescer.

3 - Apresentação do evangelho

Diante de uma situação na qual o próprio Deus o colocou, Pedro abre a sua boca, afinal, não há evangelização se não se anunciar o evangelho, e prega a mensagem de Deus: A paz de Deus em Cristo (versículos 34 a 36), a vida e a obra de Jesus Cristo (versículos 37 a 43).

Atos 10.34-43 “34 Então Pedro respondeu: Vejo claramente que Deus não mostra nenhum favoritismo. Em todas as nações ele aceita aqueles que o temem e fazem o que é certo. Esta é a mensagem de boas-novas para o povo de Israel: Há paz com Deus por meio de Jesus Cristo, que é Senhor de todos. Vocês sabem o que aconteceu em toda a Judeia, começando na Galileia, depois do batismo que João proclamou. Sabem também que Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder. Então Jesus foi por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele. E nós somos testemunhas de tudo que ele fez em toda a Judeia e em Jerusalém, onde o mataram. Penduraram-no numa cruz, mas Deus o ressuscitou no terceiro dia e permitiu que ele fosse visto, não por todo o povo, mas por nós que fomos escolhidos por Deus de antemão para sermos suas testemunhas. Nós fomos os que comemos e bebemos com ele depois que ele ressuscitou dos mortos. E ele nos mandou anunciar sua mensagem em toda parte e testemunhar que Deus o designou juiz dos vivos e dos mortos. É a respeito dele que todos os profetas dão testemunho, dizendo que todo o que nele crer receberá o perdão de seus pecados por meio de seu nome”.

Pedro foi fiel na apresentação do evangelho. Ele usou as chaves do reino para abrir as portas do céu para os gentios.

4 - Operação do Espírito

A pregação sem o Espírito Santo é morta. Assim é que, enquanto Pedro pregava, Deus derramava o seu Espírito sobre os gentios da casa de Cornélio.

Atos 10.44 a 46 “Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo desceu sobre todos que ouviam a mensagem. Os discípulos judeus que acompanhavam Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo também fosse derramado sobre os gentios, pois os ouviram falar em outras línguas e louvar a Deus”.

Da mesma forma que o Espírito Santo desceu sobre os judeus discípulos de Cristo no dia de Pentecostes (Atos 2), ele também desceu sobre esses novos convertidos gentios, e eles imediatamente começaram a louvar a Deus em suas línguas nativas.

Esse milagre era um sinal irrefutável para os judeus de que Deus também aceitava gentios na igreja. Hoje nós não podemos supor que a evidência para toda e qualquer conversão seja o falar em línguas estranhas, pois, mesmo no livro de Atos, esse foi um evento singular. É bem verdade, porém, que sem a operação do Espírito não há conversão. Dessa forma, nessa conjuntura histórica única, Deus provou que a sua graça se estende para alcançar a todos. Todos são bem-vindos em Cristo Jesus. Mediante a pregação do evangelho, o Espírito Santo chama e convence o pecador.  

5 - Confissão pública de fé

No caso de Cornélio, como todas as outras vezes no Novo Testamento, o batismo é consequência necessária à conversão.

Atos 10.46 a 48 “…Pedro perguntou: Pode alguém se opor a que eles sejam batizados agora que, como nós, também receberam o Espírito Santo. Então ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo”.

O batismo, como confissão pública de fé, sempre segue a conversão do pecador. 

6 - Comunhão fortalecedora

A comunhão da igreja é indispensável para aqueles que foram alcançados pelo evangelho da graça de Deus. No corpo de Cristo, eles compartilham alegrias, buscam encorajamento e recebem fortalecimento. É natural para o convertido desejar comunhão fortalecedora. Aliás, esse desejo por comunhão fortalecedora parece mais uma evidência de conversão do que qualquer outra coisa: O salvo quer a companhia dos salvos.

Atos 10.48 “…Depois, pediram que Pedro ficasse com eles alguns dias”.

Lugar de crente é na comunhão fortalecedora da igreja.  Salvação ao alcance de todos

Atos 10 é um capítulo épico na Bíblia, pois dá testemunho da inclusão dos gentios como iguais aos judeus na igreja de Jesus Cristo. O muro de inimizade foi derrubado. Salvação está ao alcance de todos. Portanto, permitam-me algumas observações práticas:

Avalie seus preconceitos: Olhe para Jesus e veja como ele tratou o pecado e o pecador.

Ouça a voz de Deus, levando você aos que ele soberanamente preparou para te ouvir.

Siga os passos de Pedro: Pregue o evangelho, dependa do Espírito, solicite confissão pública de fé e integre o novo discípulo na comunhão da igreja.

Fale comigo: mapirola@yahoo.com

Atos dos apóstolos 26 - Nos passos e no poder de Jesus

 


Atos 9.32 a 43 “Pedro viajava por toda parte, e foi visitar o povo santo que vivia na cidade de Lida. Ali encontrou um paralítico chamado Eneias, que permanecia de cama havia oito anos. Pedro lhe disse: Eneias, Jesus Cristo cura você! Levante-se e arrume sua maca. E, no mesmo instante, ele se levantou. Todos os moradores de Lida e de Sarona viram Eneias e se converteram ao Senhor. Havia em Jope uma discípula chamada Tabita (que em grego é Dorcas). Sempre fazia o bem às pessoas e ajudava os pobres. Por esse tempo, ficou doente e morreu. Seu corpo foi lavado para o sepultamento e colocado numa sala no andar superior. Quando os discípulos souberam que Pedro estava perto de Lida, enviaram dois homens para lhe suplicar: Por favor, venha o mais rápido possível. Então Pedro voltou com eles e, assim que chegou, foi levado para a sala do andar superior. O cômodo estava cheio de viúvas que choravam e lhe mostravam os vestidos e outras roupas que Dorcas havia feito para elas. Pedro pediu que todos saíssem do quarto. Então, ajoelhou-se e orou. Voltando-se para o corpo da mulher, disse: Tabita, levante-se, e ela abriu os olhos. Quando ela viu Pedro, sentou-se. Ele lhe deu a mão e a ajudou a levantar-se. Em seguida, chamou os discípulos e as viúvas e a apresentou viva. A notícia se espalhou por toda a cidade, e muitos creram no Senhor. Pedro ficou em Jope algum tempo, hospedado na casa de Simão, um homem que trabalhava com couro”. 

O discípulo é igual ao seu Mestre

“Desde o início do cristianismo” afirmou David Platt, “o desdobramento natural de ser um discípulo de Jesus sempre foi fazer discípulos de Jesus”. “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de gente”, disse o Senhor em Mateus 4.19. Isso foi uma promessa: Jesus tomaria seus discípulos recém convertidos e os transformaria em cristãos discipuladores. Depois veio o mandamento: “vão e façam discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19 e 20). Afinal, após três anos de relacionamento discipulador com Jesus, os apóstolos estavam mais do que preparados para reproduzirem a vida do mestre através da vida deles, fazendo novos discípulos.  

É impossível ser discípulo de alguém e não acabar ficando parecido com aquela pessoa. Aliás, o que se espera do discípulo é que ele se pareça com o seu discipulador. Jesus disse que “Os discípulos não são maiores que seu mestre. Mas o aluno bem instruído será como o mestre” (Lucas 6.40).

Gente, esse é o ponto central quando o assunto é ser discípulo de Jesus: Nós o imitamos, damos continuidade ao seu ministério e, nesse processo, nos tornamos iguais ao Mestre. Portanto, a pergunta: De que maneira a minha vida se parece com a de Jesus? Eu estudo e aplico os seus ensinos? Faço discípulos? Enfim, eu sou “como o mestre” (Lucas 6.40).

Voltaremos a estas questões. Antes, porém, entendamos o contexto da passagem bíblica que acabamos de ler.

O evangelho, dos judeus para os gentios

O texto que nós lemos e temos para estudar nesta manhã é muito interessante. John Stott observa que, da conversão de Paulo (Atos 9.1 a 31), que seria o apóstolo dos gentios, Lucas (autor de Atos) passa à conversão de Cornélio (Atos 9.32 a 10.48), o primeiro gentio a se tornar crente em Jesus Cristo.

Lucas, portanto, quer que notemos que a chama do evangelho de Cristo estava se espalhando: Saiu de Jerusalém, passou pela Judeia e Samaria, chegando, agora, aos gentios. O próximo passo seria chegar “nos lugares mais distantes da terra” (Atos 1.8), e Paulo se encarregaria dessa missão.

Paulo libertaria o evangelho de sua roupagem judaica, abrindo o reino de Deus para os gentios, para as gentes de todas as nações fora de Israel. No entanto, Paulo apóstolo aos gentios, não faria nada de sua cabeça, ou seja, dissociado da fé apostólica. Ele não criaria uma religião diferente da de Jesus, como alguns estudiosos liberais afirmam que ele o fez. O fundamento da igreja, como Paulo mesmo ensinou, está nos textos dos profetas e dos apóstolos do período bíblico (Efésios 2.20 e 3.5).

Para testificar que o apóstolo dos gentios estava em sintonia com Jesus e seus apóstolos judeus, Lucas, após relatar a conversão de Saulo, anotou a transição entre Pedro (apóstolo aos judeus, apóstolo em Jerusalém, Judeia e Samaria) e Paulo (apóstolo aos gentios, aos lugares mais distantes da terra). Lucas está descrevendo a construção da missão entre os gentios.

Nas palavras de John Stott: Lucas, portanto, faz uma transição abrupta de Paulo (Atos 9.1 a 31) para Pedro em Atos 9.32 e seguintes. Lucas deixa Paulo em Tarso (Atos 9.30), temporariamente fora da vista, até trazê-lo ao centro do palco em sua primeira viagem missionária (Atos 13.1 a seguir). Enquanto isso, por mais de três capítulos (Atos 9.32 a 12.25), apesar de mencionar Paulo duas vezes (Atos 11.25 a 30 e 12.25), Lucas se concentra em Pedro. Assim, se o livro relata os “Atos dos Apóstolos”, esta parte relata alguns “Atos de Pedro”, após os quais Pedro some totalmente de vista, abrindo caminho para Paulo.

O evangelho estava seguindo dos judeus para os gentios, de Jerusalém para a Judeia, depois Samaria, até chegar nos lugares mais distantes da terra.

Nos passos e no poder de Jesus

Até chegar em Paulo de novo (Atos 13.1 a seguir), Lucas contará basicamente três histórias envolvendo a vida de Pedro:

1 - A história de um milagre duplo (a cura de Eneias, e a ressurreição Tabita ou Dorcas, Atos 9.32 a 43).

2 - A história de uma conversão (como Cornélio abraçou a fé, Atos 10.1 a 11.18).

3 - A história de uma fuga (como Pedro foi liberto da prisão e das más intenções de Herodes, Atos 12).

Stott é, de novo, esclarecedor:

Cada uma (das três histórias) pode ser vista como uma confrontação, com a doença e a morte, com a alienação gentia, e com uma tirania política. E mais, em cada caso, o conflito deu lugar à vitória, a cura de Eneias, a ressurreição de Dorcas, a conversão de Cornélio, e a eliminação de Herodes. O apóstolo Pedro é retratado como um agente efetivo pelo qual o Senhor ressurreto, através de seu Espírito, continuou a agir e a ensinar.

Pedro, o discípulo, estava nos passos e no poder de Jesus, o Mestre.

Deixando as duas últimas histórias de Pedro para as próximas mensagens, a história da conversão de Cornélio, e a história da prisão e da libertação de Pedro, hoje nós vamos nos concentrar em seu ministério junto a Eneias e Tabita.

O que Pedro, nos passos e no poder de Jesus, tem a nos ensinar? O que o discípulo que viveu assim como o Mestre tem a nos dizer sobre a vida do discípulo que faz discípulos?

1 - Envolvimento pessoal

O envolvimento pessoal é marca indispensável do discípulo que segue nos passos e no poder de Jesus. Não basta pregar às pessoas, precisamos manter contato com elas, ir ao socorro delas.

Observe:

Atos 9.32 e 33 “Pedro viajava por toda parte, e foi visitar o povo santo que vivia na cidade de Lida. Ali encontrou um paralítico chamado Eneias, que permanecia de cama havia oito anos”.

Lida ficava numa localização estratégica: As estradas que ligavam Egito e Síria, bem como Jerusalém e Jope passavam pela cidade. Hoje o lugar deu espaço ao Aeroporto Internacional de Israel em Tel Aviv, Ben Gurion Airport.

Em suas andanças e visitas, Pedro encontrou Eneias, que precisava de cura. O envolvimento pessoal é indispensável ao discípulo de Jesus.

2 - Exaltação de Cristo

Além do envolvimento pessoal, outra marca indispensável do discípulo que segue nos passos e no poder de Jesus é a exaltação do nome de Cristo.

Atos 9.34 e 35 “Pedro lhe disse: Eneias, Jesus Cristo cura você! Levante-se e arrume sua maca. E, no mesmo instante, ele se levantou. Todos os moradores de Lida e de Sarona viram Eneias e se converteram ao Senhor”.

Observe: A pessoa que recebe glória, o poder que curou Eneias e o propósito da cura.

A pessoa que recebe a glória é Jesus Cristo. Pedro não usa a cura para exaltar seu “ministério de cura e libertação”, “Eneias, Jesus Cristo cura você! Levante-se e arrume sua maca”.

O poder que curou Eneias foi divino: “no mesmo instante, ele se levantou”.

O propósito da cura foi promover salvação. Jamais se esqueça disso! “Todos os moradores de Lida e de Sarona viram Eneias e se converteram ao Senhor”.

Sinais, maravilhas e curas divinas sempre tiveram um propósito muito específico no Novo Testamento: Autenticar a mensagem dos apóstolos, promovendo conversão e salvação.

Observe o que diz o autor de Hebreus:

Hebreus 2.3 e 4 “O que nos faz pensar que escaparemos se negligenciarmos essa grande salvação, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois transmitida a nós por aqueles que o ouviram falar? E Deus confirmou a mensagem por meio de sinais, maravilhas e diversos milagres, e também por dons do Espírito Santo, conforme sua vontade”. 

O que se nota como resultado da cura de Eneias e da ressurreição de Dorcas é que pessoas se converteram a Jesus Cristo:

Atos 9.42 e 43 “A notícia se espalhou por toda a cidade, e muitos creram no Senhor. Pedro ficou em Jope algum tempo, hospedado na casa de Simão, um homem que trabalhava com couro”.

O propósito de sinais, maravilhas e curas sempre foi promover salvação, autenticando a pregação do evangelho. Os apóstolos tinham consciência disso:

Atos 4.29 a 31 “E agora, Senhor, ouve as ameaças deles e concede a teus servos coragem para anunciar tua palavra. Estende tua mão com poder para curar, e que sinais e maravilhas sejam realizados por meio do nome de teu santo Servo Jesus. Depois dessa oração, o lugar onde estavam reunidos tremeu, e todos ficaram cheios do Espírito Santo e pregavam corajosamente a palavra de Deus”.  

O nome de Cristo é exaltado na vida do discípulo quando Jesus, e não ministérios, recebe glória, quando não há dúvida do poder divino, da sobrenaturalidade, e por fim, quando se entende que o propósito de todas as coisas é a autenticação da Palavra para a salvação.

Paulo não poderia ter sido resumidamente mais claro, quando escreveu aos romanos:

Romanos 15.16 a 19 “sou um mensageiro da parte de Cristo Jesus a vocês, os gentios. Anuncio-lhes as boas-novas para que se tornem oferta aceitável a Deus, separados pelo Espírito Santo. Tenho motivo, portanto, para me entusiasmar com o que Cristo Jesus tem feito por meio de meu serviço a Deus. E, no entanto, não ouso me vangloriar de nada, exceto do que Cristo fez por meu intermédio a fim de conduzir os gentios a Deus, por minha mensagem e pelo meu trabalho, convencendo-os pelo poder de sinais e maravilhas e pelo poder do Espírito de Deus. Assim, apresentei plenamente as boas-novas de Cristo desde Jerusalém até o Ilírico (nordeste da Itália)”.

3 - Disposição para servir

Nos passos e no poder de Jesus, o discípulo se envolve pessoalmente com os outros, exalta a Jesus Cristo em tudo o que faz, mas ele também se dispõe para servir.

Atos 9.36 a 39 “Havia em Jope uma discípula chamada Tabita (que em grego é Dorcas). Sempre fazia o bem às pessoas e ajudava os pobres. Por esse tempo, ficou doente e morreu. Seu corpo foi lavado para o sepultamento e colocado numa sala no andar superior. Quando os discípulos souberam que Pedro estava perto de Lida, enviaram dois homens para lhe suplicar: Por favor, venha o mais rápido possível. Então Pedro voltou com eles e, assim que chegou, foi levado para a sala do andar superior. O cômodo estava cheio de viúvas que choravam e lhe mostravam os vestidos e outras roupas que Dorcas havia feito para elas”.

Disposição para servir é marca de quem anda nos passos e no poder de Jesus.

4 - Espiritualidade discreta

Nos passos e no poder de Jesus, o discípulo pode ser tentado a querer aparecer mais do que o Mestre. Não foi o caso de Pedro. Ele era homem dedicado à oração, mas em secreto, conforme Jesus ensinou que deveria ser (Mateus 6.6 e 18).

Atos 9.40 a 42 “Pedro pediu que todos saíssem do quarto. Então, ajoelhou-se e orou. Voltando-se para o corpo da mulher, disse: Tabita, levante-se, e ela abriu os olhos. Quando ela viu Pedro, sentou-se. Ele lhe deu a mão e a ajudou a levantar-se. Em seguida, chamou os discípulos e as viúvas e a apresentou viva. A notícia se espalhou por toda a cidade, e muitos creram no Senhor”.

Espiritualidade discreta é marca de quem anda nos passos e no poder de Jesus.

5 - Ausência de preconceito

A última marca que podemos observar na vida de quem anda nos passos e no poder de Jesus é a ausência de preconceito.

Atos 9.43 “Pedro ficou em Jope algum tempo, hospedado na casa de Simão, um homem que trabalhava com couro’.

Essa “nota de rodapé” parece sem importância, mas não é: Pedro hospedou-se na casa de um curtidor de couro! Curtidores de couro eram desprezados pelos judeus do primeiro século. Afinal, eles lidavam, tocavam, enfim, manuseavam pele de animais mortos. Trabalhar com couro, portanto, era uma profissão impura para os judeus.

Pedro, após esta visita, teria sido evitado, colocado para os cantos, em qualquer sinagoga dos judeus. Só que, enquanto cristão, andando nos passos e no poder de Jesus, o apóstolo sabia que se tem algo que não pode dominar o coração de um crente é o preconceito, “Deus não trata as pessoas com parcialidade ou favoritismo” (Atos 10.34). O crente vai onde está o pecador (1 Coríntios 9.19 a 22). Afinal, ausência de preconceito é marca de quem anda nos passos e no poder de Jesus.

Nos passos e no poder de Jesus

O discípulo é chamado para fazer discípulos. Ele precisa ser como o seu Mestre. Ou seja: Ele tem que andar nos passos e no poder de Jesus…

Cultivando o envolvimento pessoal.

Exaltando a pessoa de Cristo.

Dispondo-se para servir.

Espiritualmente discreto.

Sem preconceito, parcialidade ou favoritismo no coração. Crentes assim, uma igreja assim, colhem seus frutos:

Atos 9.43 “A notícia se espalhou por toda a cidade, e muitos creram no Senhor”.

Sigamos, pois, nos passos e no poder de Jesus. 

Quem o Senhor derrame sobre nós graça, misericórdia e paz.

Fale comigo: mapirola@yahoo.com

Atos dos apóstolos 25 - A vida transformada

 


Atos 9.1 a 31

Atos 9.17 a 22 “Ananias foi e encontrou Saulo. Ao impor as mãos sobre ele, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que lhe apareceu no caminho para cá, me enviou para que você volte a enxergar e fique cheio do Espírito Santo. No mesmo instante, algo semelhante a escamas caiu dos olhos de Saulo, e sua visão foi restaurada. Então ele se levantou, foi batizado e, depois de comer, recuperou as forças. Saulo permaneceu alguns dias em Damasco, com os discípulos. Logo, começou a falar de Jesus nas sinagogas, dizendo: Ele é o Filho de Deus. Todos que o ouviam ficavam admirados. Não é esse o homem que causou tanta destruição entre os que invocavam o nome de Jesus em Jerusalém, perguntavam. E não veio aqui para levá-los como prisioneiros aos principais sacerdotes? A pregação de Saulo tornou-se cada vez mais poderosa, pois ele deixava os judeus de Damasco perplexos, provando que Jesus é o Cristo”.

Pessoas de verdade

Você conhece uma pessoa de verdade? Gente de carne e osso, com rugas e verrugas… gente como a gente, sem máscaras e que ainda assim você continua admirando, relacionando, dando e recebendo amor… Sejamos honestos: É muito difícil encontrar gente assim… é muito difícil achar uma pessoa diferenciada. Millôr Fernandes, desenhista e jornalista bastante conhecido dos brasileiros, falecido em 2012, cunhou uma frase que reflete a mais pura verdade: Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem!

Elas são admiráveis, mas à distância, com toques e retoques, com máscaras e make ups. Quando chegam perto da gente, retiram a maquiagem e descobrimos seus furos, enxergamos suas cicatrizes e encaramos seus pecados, nós desistimos delas.

Por quê? Primeiro, porque nós não sabemos amar de verdade e, segundo, porque nós ansiamos por pessoas de verdade, mas que sejam transformadas, diferenciadas. Gozado que o que nós esperamos dos outros, geralmente não buscamos para nós mesmos. Confúcio dizia assim: Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo.

Esperamos do outro virtude, mas não nos esforçamos o bastante para sermos virtuosos, focamos na beleza do corpo trabalhado e desprezamos a bênção do caráter transformado. Para o outro, virtude e para nós, vaidade. É uma insanidade! O mundo precisa desesperadamente de pessoas de verdade: De gente transformada pela graça de Deus e que vive em processo de santificação progressiva, de transformação diária, da mesma forma que Paulo buscava viver.

Filipenses 3.12 “Não estou dizendo que já obtive tudo isso, que já alcancei a perfeição. Mas prossigo a fim de conquistar essa perfeição para a qual Cristo Jesus me conquistou”.

Segundo o apóstolo Paulo, pessoas de verdade não são perfeitas, mas admitem que precisam de graça, da mesma graça que as salvou, para viverem perseguindo a perfeição em Cristo: É gente quebrantada e amável, gente de fé.

A vida transformada

Pessoas de verdade são pessoas transformadas por Deus. Como elas são?

Graças a Deus que a Bíblia está repleta de exemplos de vidas transformadas que nos apontam o caminho para essa mesma realidade em nossas vidas. Hoje, eu chamo mais uma vez a sua atenção para a história da conversão de Paulo. Estudaremos algumas características da vida transformada por Deus.

Veremos cinco, a vida transformada é a que:

Respondeu ao chamado de Cristo, rompeu com o “eu” do passado, relaciona-se na comunhão da igreja, reconfigura a mente pela Palavra e reverbera o evangelho de Cristo.

Vejamos uma de cada vez

1 - A vida transformada é a que respondeu ao chamado de Cristo

Vida transformada é fruto de conversão. Mas, o que é conversão? Fala-se tanto disso entre nós, mas temo que poucos saibam o que de fato seja conversão. Wayne Grudem assim define esse marco na vida de uma pessoa transformada: Conversão é nossa resposta espontânea ao chamado do evangelho, pela qual sinceramente nos arrependemos dos nossos pecados e colocamos a confiança em Cristo para receber a salvação.

A palavra conversão significa “volta”, aqui ela representa uma volta espiritual, voltar-se do pecado para Cristo. O voltar-se do pecado é chamado arrependimento, e o voltar-se para Cristo é chamado fé, um não pode ocorrer sem o outro, e eles devem ocorrer juntos quando se dá a conversão. Quando lemos o relato da viagem de Saulo de Tarso para Damasco, nós aprendemos sobre o momento em que a vida daquele homem começou a ser transformada, o momento de sua conversão. Note o que está envolvido no chamado de Cristo (ou do evangelho):

Atos 9.3 a 9 “ (Contato) quando se aproximava de Damasco, de repente uma luz do céu brilhou ao seu redor. (Confrontação) Ele caiu no chão e ouviu uma voz lhe dizer: Saulo, Saulo, por que você me persegue. (Conversão) quem és tu, Senhor, perguntou Saulo. E a voz respondeu: Sou Jesus, a quem você persegue! Agora levante-se e entre na cidade, onde lhe dirão o que fazer. Os homens que estavam com Saulo ficaram calados de espanto, pois ouviam uma voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão, mas, ao abrir os olhos, estava cego. Então o conduziram pela mão até Damasco. (Consagração) Lá ele permaneceu, cego, por três dias, e não comeu nem bebeu coisa alguma”.

A vida transformada é a que respondeu ao chamado de Cristo, ao se ter contato com o evangelho, recebe-se o confronto, arrepende-se do pecado e deposita-se fé em Jesus.

2 - A vida transformada é a que rompeu com o “eu” do passado

Lucas resume como era a vida de Paulo antes de sua conversão:

Atos 9.1 e 2 “ Enquanto isso (enquanto o evangelho se espalhava de Jerusalém pela Judeia e Samaria), Saulo, motivado pela ânsia de matar os discípulos do Senhor, procurou o sumo sacerdote. Pediu cartas para as sinagogas em Damasco, solicitando que cooperassem com a prisão de todos os seguidores do Caminho, homens e mulheres, que ali encontrasse, para levá-los como prisioneiros a Jerusalém”.

John Stott observa que Lucas já havia mencionado Paulo três vezes, sempre como feroz adversário de Cristo e sua igreja (Atos 7.58, 8.1 e 8.3). Em Atos 8.3 nós lemos o seguinte: “Saulo, porém, procurava destruir a igreja. Ia de casa em casa, arrastava para fora homens e mulheres e os lançava na prisão”.

João Calvino aponta que alguns dos termos que Lucas usou para descrever Saulo antes de sua conversão parecem ser propositadamente escolhidos para retratá-lo como “um animal selvagem e feroz”. Para se ter uma ideia, o verbo destruir, cuja única ocorrência no Novo Testamento se encontra em Atos 8.3 (Saulo, porém, procurava destruir a igreja), em referência à “destruição” que Saulo causou à igreja, é empregado na versão grega (LXX ou septuaginta) do texto do salmista:

Salmos 80.13 “Os javalis da floresta devoram a videira, animais selvagens se alimentam dela”.

Antes da conversão, Paulo, o Saulo de Tarso, era como um bicho, um animal selvagem que se alimentava de ira e de ódio, devorando a igreja. Aliás, era assim que os crentes o definiam. Tanto é que, um pouco mais tarde, os cristãos de Damasco disseram assim:

Atos 9.21 “Todos que o ouviam ficavam admirados. Não é esse o homem que causou tanta destruição (grego: espancamento) entre os que invocavam o nome de Jesus em Jerusalém, perguntavam. E não veio aqui para levá-los como prisioneiros aos principais sacerdotes”.

Falando dessa imagem de Paulo antes da conversão, John Stott cita um autor que sugere que a menção, “Saulo, motivado pela ânsia de matar os discípulos do Senhor” ou “respirando ameaças e morte” em Atos 9.1 era uma alusão “ao arfar e ao bufar dos animais selvagens”.  Paulo tinha consciência dessa vida selvagem que ele levava antes de Cristo o salvá-lo no caminho para Damasco. Testemunhando a Agripa, ele disse assim:

Atos 26.11 “Muitas vezes providenciei que fossem castigados nas sinagogas, a fim de obrigá-los a blasfemar. Eu me opunha a eles com tanta violência que os perseguia até em cidades estrangeiras”.

Mas, esse que falava ao rei não era mais a mesma pessoa. Ele tinha rompido com o “eu” do passado. Falando sobre essa transformação e rompimento com o passado por parte de Paulo, João Calvino escreveu algo que chega a ser poético: (Em Paulo, a graça de Deus é vista) não apenas em um lobo tão cruel sendo transformado numa ovelha, mas também em ele assumir o caráter de um pastor.

A vida transformada é a que rompeu com o “eu” do passado, tornando-se motivo de alegria e sendo fonte de bênção para outras pessoas. Escrevendo aos Gálatas, Paulo testemunha desse rompimento com o “eu” do passado:

Gálatas 1.13 e 22 a 24 “Vocês sabem como eu era quando seguia a religião judaica, como perseguia com violência a igreja de Deus. Não media esforços para destruí-la… As igrejas em Cristo que estão na Judeia ainda não me conheciam pessoalmente. Sabiam apenas o que as pessoas diziam: Aquele que nos perseguia agora anuncia a mesma fé que antes tentava destruir. E louvavam a Deus por minha causa”.

A vida transformada é a que rompeu com o “eu” do passado.

3 - A vida transformada relaciona-se na comunhão da igreja

Quem responde ao chamado de Cristo (conversão) e rompe com o “eu” do passado (santificação) precisa da comunhão da igreja. Nem mesmo Paulo caminhou sozinho. Ele precisou dela para acolhê-lo, cuidar dele, batizá-lo, ser discipulado e enviado a pregar. Leiam comigo e observem como é importante para os que vão sendo salvos a vida em comunhão na igreja de Cristo e o que se requer dos já convertidos que os recebem.   

Atos 9.8 a 19 “Saulo levantou-se do chão, mas, ao abrir os olhos, estava cego. Então o conduziram pela mão até Damasco. Lá ele permaneceu, cego, por três dias, e não comeu nem bebeu coisa alguma. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor o chamou numa visão: Ananias. Sim, Senhor, respondeu ele. O Senhor disse: Vá à rua Direita, à casa de Judas. Ao chegar, pergunte por um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está orando neste momento. Mostrei-lhe numa visão um homem chamado Ananias chegando e impondo as mãos sobre ele para que voltasse a enxergar. Ananias, porém, respondeu: Senhor, ouvi muita gente falar das coisas horríveis que esse homem vem fazendo ao teu povo santo em Jerusalém. E ele tem autorização dos principais sacerdotes para prender todos que invocam o teu nome. O Senhor, no entanto, disse: Vá, pois Saulo é o instrumento que escolhi para levar minha mensagem aos gentios e aos reis, bem como ao povo de Israel. E eu mostrarei a ele quanto deve sofrer por meu nome. Ananias foi e encontrou Saulo. Ao impor as mãos sobre ele, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que lhe apareceu no caminho para cá, me enviou para que você volte a enxergar e fique cheio do Espírito Santo. No mesmo instante, algo semelhante a escamas caiu dos olhos de Saulo, e sua visão foi restaurada. Então ele se levantou, foi batizado e, depois de comer, recuperou as forças. Saulo permaneceu alguns dias em Damasco, com os discípulos”.

A vida transformada relaciona-se na comunhão da igreja.

4 - A vida transformada reconfigura a mente pela Palavra

Paulo precisava repensar todo o seu conteúdo do Antigo Testamento à luz de Jesus de Nazaré, o Messias de Deus. Assim é que, por dura providência divina, ele se retira para pensar tudo à luz da Palavra e sob a direção do Espírito, e depois de certo tempo (Atos 9.23) procura os apóstolos em Jerusalém para mais aprendizado e crescimento.

A seguir, observe a sequência dos fatos na vida de Paulo (não necessariamente em ordem cronológica), enquanto ele buscava reconfigurar a mente pela Palavra.

Enviado para o anonimato

Atos 9.22 a 25 “A pregação de Saulo tornou-se cada vez mais poderosa, pois ele deixava os judeus de Damasco perplexos, provando que Jesus é o Cristo. Depois de certo tempo, alguns judeus conspiraram para matá-lo. Dia e noite, vigiavam a porta da cidade com a intenção de assassiná-lo, mas ele foi informado desse plano. Então, durante a noite, alguns de seus discípulos o baixaram pela muralha da cidade num grande cesto”.

As aulas do deserto 

Gálatas 1.15 a 17 “Contudo, ainda antes de eu nascer, Deus me escolheu e me chamou por sua graça. Foi do agrado dele revelar seu Filho a mim, para que eu o anunciasse aos gentios. Quando isso aconteceu, não consultei ser humano algum. Tampouco subi a Jerusalém para pedir o conselho daqueles que eram apóstolos antes de mim. Em vez disso, fui à Arábia e depois voltei à cidade de Damasco”.

Aos pés dos apóstolos

Gálatas 1.18 a 20 “Então, passados três anos, fui a Jerusalém para conhecer Pedro, com quem permaneci quinze dias. O único outro apóstolo que vi naquela ocasião foi Tiago, irmão do Senhor. Afirmo diante de Deus que o que lhes escrevo não é mentira”.

Sob os cuidados de um discipulador

Atos 9.26 a 28 “Quando Saulo chegou a Jerusalém, tentou se encontrar com os discípulos, mas todos estavam com medo dele, pois não acreditavam que ele tivesse de fato se tornado discípulo. Então Barnabé o levou aos apóstolos e lhes contou como Saulo tinha visto o Senhor no caminho para Damasco e como ele lhe havia falado. Contou também que, em Damasco, Saulo havia pregado corajosamente em nome de Jesus. Saulo permaneceu com os apóstolos e andava com eles por Jerusalém, pregando corajosamente em nome do Senhor”.

Em tudo isso Paulo estava reconfigurando a mente pela Palavra: Em silêncio e solitude, com os textos dos profetas e a palavra dos apóstolos, discipulado por homens piedosos.

5 - A vida transformada reverbera a Palavra de Deus

A vida transformada é a que respondeu ao chamado de Cristo, rompeu com o “eu” do passado, relaciona-se na comunhão da igreja, reconfigura a mente pela Palavra e, por fim, reverbera a palavra de Deus.

Atos 9.19 a 25 “… Saulo permaneceu alguns dias em Damasco, com os discípulos. Logo, começou a falar de Jesus nas sinagogas, dizendo: Ele é o Filho de Deus. Todos que o ouviam ficavam admirados. Não é esse o homem que causou tanta destruição entre os que invocavam o nome de Jesus em Jerusalém, perguntavam. E não veio aqui para levá-los como prisioneiros aos principais sacerdotes. A pregação de Saulo tornou-se cada vez mais poderosa, pois ele deixava os judeus de Damasco perplexos, provando que Jesus é o Cristo. Depois de certo tempo, alguns judeus conspiraram para matá-lo. Dia e noite, vigiavam a porta da cidade com a intenção de assassiná-lo, mas ele foi informado desse plano. Então, durante a noite, alguns de seus discípulos o baixaram pela muralha da cidade num grande cesto”.

A forma corajosa e destemida com que Paulo pregou o evangelho em Damasco testificava aos apóstolos amedrontados que ele era uma pessoa transformada.

Atos 9.26 e 27 | 26 Quando Saulo chegou a Jerusalém, tentou se encontrar com os discípulos, mas todos estavam com medo dele, pois não acreditavam que ele tivesse de fato se tornado discípulo. Então Barnabé o levou aos apóstolos e lhes contou como Saulo tinha visto o Senhor no caminho para Damasco e como ele lhe havia falado. Contou também que, em Damasco, Saulo havia pregado corajosamente em nome de Jesus”.

Desde o momento em que foi agarrado pela graça de Deus, Paulo jamais deixou de reverberar a palavra de Cristo. Seguiu com fé, esperança e amor, lançando fora o medo.

Atos 9.28 a 31 “Saulo permaneceu com os apóstolos e andava com eles por Jerusalém, pregando corajosamente em nome do Senhor. Também conversava e discutia com alguns judeus de fala grega, mas estes procuravam matá-lo. Quando os irmãos souberam disso, levaram Saulo a Cesaréia e de lá o enviaram a Tarso”.

Em tudo isso a igreja estava sendo abençoada.

Atos 9.31 “A igreja tinha paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria e ia se fortalecendo à medida que andava no temor do Senhor. E, encorajada pelo Espírito Santo, crescia em número”.

A vida transformada

Precisamos de pessoas de verdade no mundo, de vidas transformadas por Deus. Que outros Paulos surjam entre nós. Comentando a conversão dele, John Stott escreveu:

Se perguntarmos o que causou a conversão de Saulo, só existe uma resposta possível. O que sobressai na narrativa é a graça soberana de Deus através de Jesus Cristo. Saulo não se “decidiu por Cristo”, como poderíamos dizer. Pelo contrário, ele estava perseguindo Cristo. É melhor dizer que Cristo se decidiu por ele e interveio em sua vida. A evidência disso é inquestionável.

Jesus começou e completou a transformação na vida de Paulo. Ele é o autor e o consumador de nossa fé (Hebreus 12.2).

Quando ele nos chama para a salvação, arrependemo-nos e respondemos com fé, nós rompemos com o “eu” do passado, buscamos a comunhão da igreja, reformatamos a mente pela Palavra e reverberamos o evangelho de Cristo.

Que sejamos admirados mesmo quando nos conhecerem na intimidade.

Seja a sua uma vida transformada em Jesus Cristo.

Fale comigo: mapirola@yahoo.com